“A senhora fala da igreja dos capuchinhos?”, perguntei. Ela não sabia, só dizia que era uma igreja na qual lecionavam vários cursos; ora, na igreja dos capuchinhos deveriam ter cursos, sempre há cursos lá, além disso era a igreja mais próxima. “Olhe, não fica muito longe... vamos que eu deixo a senhora lá”.
No caminho, ela me perguntava várias coisas. Perguntou se eu morava por lá, respondi que morava em um bairro próximo (no caso, o Guamá); perguntou se eu estudava, onde eu estudava, o que eu estudava e ficou surpresa quando eu disse que me concluiria o curso de jornalismo ano que vem. “Usted es una chica espierta!”, ela dizia, sempre atenta ao que eu falava, e para as ruas que eu descrevia. Expliquei porque se chamava igreja dos Capuchinhos, expliquei sobre a importância do forró para a universidade e para os estudantes, expliquei que era possível conhecer pessoas de outros lugares por meio da Internet. Seu nome era Sofia. Era uma peruana espertinha, que vinha com um par de sapatos nos pés e segurando outro par, pois ela tinha andado tanto que os sapatos quebraram...
Chegando perto dos Capuchinhos, ela me perguntou se eu namorava, eu disse que não. Perguntou se eu estava gostando de alguém, eu disse que sim. Ela então disse que já tinha namorado por carta uma vez, e que o cara era um perfeito pilantra.
- Cuidado com quem você namora. Os homens são maus, são desonestos, difícil é encontrar um homem bom hoje em dia. Quando você pensa que são bons, eles te enganam. Na sua universidade existem homens bonitos?
-Sim, existem.
- E algum homem bonito já te atraiu?
-Sim, mas não me importo muito com a beleza. A beleza vem com a convivência.
- Então você namoraria com um homem feio?
- Sim... por que não?
- Mentira. Duvido que se entre um homem feio e um bonito você escolheria o feio. Porque por mais que a gente diga que não se importa, a beleza sempre falará mais alto.
- Isso é.
Chegando à igreja dos Capuchinhos, não havia cursos lá. Era a igreja errada, ela procurava a paróquia São José de Queluz, que ficava na direção oposta à que ela estava andando (por isso pensei que viesse para os Capuchinhos), no bairro de Canudos.
- Você me enganou! Sabe que eu não sei andar por esse bairro e me trouxe ao lugar errado. Vim andando de lá da Pedreira e meus pés doem, estou com fome, meus olhos estão tão ofuscados que quase não consigo enxergar.
Me senti muito idiota nessa hora, admito.
- Calma, senhora. Posso levar a senhora à essa igreja, vamos pra lá.
- Não quero, me leva pra 1º de “deciembre”, moro na Mariz e Barros, não agüento mais andar.
Fomos rumo à José Bonifácio, já estávamos ali em frente à capela do Berço de Belém. Ela não tinha dinheiro para o ônibus, então me ofereci pra levar ela lá em Queluz. No caminho, olhávamos as pessoas andando, ela prestava atenção em cada uma delas, mesmo que ninguém a notasse, em meio à correria do horário de almoço. Ela questionou o fato dos homens paraenses serem baixinhos. Ela era mais baixinha do que eu, que tenho 1,56m.
- Fiquei muito chateada com você, pensei que fosse minha amiga, mas você me enganou. Estou muito desgostosa por isso. Agora estou cansada e quero ir pra casa.
- Eu disse que não foi minha intenção, se a senhora tivesse me explicado melhor como fez agora, eu não tinha levado à senhora lá, entenda que não fiz por mal... olhe, pra senhora ver que não estava querendo lhe enganar, vamos pegar um ônibus e eu lhe deixo lá.
- Não quero, quero ir pra casa, não agüento mais dar um passo sequer.
Ela estava cansada, realmente. Comprei uma paçoca pra trocar o dinheiro, dei a paçoca e mais dois reais pra ela pegar o Satélite.
- Você não vai comer isso?
- Não, pode comer.
- Mas você não almoçou ainda, está com fome.
- Vou comer em casa, já lhe disse que moro aqui perto, pode comer.
Sorri pra ela, e ela sorriu pra mim.
- Obrigada por tudo, graças a Deus encontrei você, mesmo que tenha me enganado, foi bom.
- De nada, foi bom ter encontrado a senhora também, me diverti e aprendi coisas legais. Às vezes, Deus faz isso conosco, coloca uma pessoa para nos ajudar quando precisamos, mesmo que essa pessoa não seja a mais apropriada, como foi no meu caso.
Ela sorriu novamente, agarrou o pacotinho de paçoca com alegria e demonstrou entusiasmo, olhando pra mim com aquele semblante cansado, porém aliviado.
- Você tem parentes aqui?
- Sim, minha família mora aqui.
- Você tem sorte. Vim do Peru, tenho quarenta e oito anos, e não tenho marido. Não tenho ninguém, moro só aqui em Belém. É muito ruim quando a gente não tem ninguém, me sinto mal por não ser casada. Deus fez os seres humanos para ficarem juntos, não para ficarem sós. Somos seres humanos, diferentes das pedras, que podem ficar sós. Ora por mim, para eu arrumar um marido que possa me ajudar.
- Certo, vou orar pela senhora.
Ajudei ela a entrar no ônibus, ela me agradeceu novamente, e se foi, rumo a outro bairro. Eu voltei para casa, pensando na situação dela e refletindo sobre as coisas que conversamos. Agora, sempre que vier andando por São Braz, vou me lembrar da peruana, e vou torcer para que ela arrume mesmo um marido. Ou que pelo menos encontre alguém que a faça feliz.
P.S: Não sei se é porque eu sou fã da história, mas esse encontro realmente me lembrou o Pequeno Príncipe quando encontrou o piloto do avião.





